quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

O JILÓ E O INCESTO

O prédio da empresa em que trabalhava tinha doze andares. Quando embarquei no décimo, o office boy da presidência - um tipo bem descolado, falante, cheio de gestos - já estava de bate-papo com o ascensorista. Cumprimentei a ambos e solicitei o térreo, interrompendo por instantes a conversa, logo retomada:
- Mas por quê não deu pra tu ir na casa do Getúlio no sábado?
- Tinha um casamento pra ir... prima da minha namorada... ela era a madrinha.
- Tu não sabe o que tu perdeu...
- É, eu ouvi falar que tava muito bom...que rolou uma pelada maneira, muita cerveja...
- Isso aí, mas o que arrebentou, que tava bom mesmo era o jiló frito que a mulher do Getúlio preparou...
- Jiló!!?? - cortou o ascensorista com cara de nojo - Jiló é comida pra passarinho !
- Que isso, meu irmão... ?! Tu nunca comeu uma jilozada frita...!!?? Tem de comer... vou te convidar pra comer uma num boteco lá perto de casa. - insistiu o office boy, tentando convencer o outro de que era um manjar dos deuses.
Quando o ascensorista ia dizer mais alguma coisa, a conversa foi novamente interrompida no quinto por alguém que queria ir para o terceiro. Dois andares de silêncio. Era um diretor. Foi o diretor sair do elevador para o ascensorista dar o seu parecer definitivo:
- Me desculpa, meu irmão... mas pra mim quem come jiló, come até a mãe ! Térreo!

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